DISCURSO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE ANGOLA
- Sua Santidade Papa Leão XIV, Sumo Pontífice da Igreja Católica Romana,
- Distintos Membros da delegação do Vaticano,
- Caros Membros do Governo,
- Excelentíssimos Senhores Deputados da Assembleia Nacional,
- Distintos Membros da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe,
- Estimados Membros do Corpo Diplomático acreditado na República de Angola,
- Senhoras e Senhores das Organizações representativas da Sociedade Civil,
- Minhas Senhoras, Meus Senhores
Ao receber Vossa Santidade em Luanda, desejo-Vos, no meu nome próprio, no da minha família e no do povo angolano, as boas-vindas a Angola, país que O acolhe com alegria e entusiasmo.
Expressamos o nosso grande regozijo por estar entre nós nestes próximos dias, em que terá a oportunidade de constatar o grande carinho e simpatia de que goza por parte dos fiéis católicos, dos cristãos e dos angolanos em geral.
Neste acto em que estão presentes representantes dos vários sectores da vida nacional angolana, gostaria de Vos expressar o quão honrados nos sentimos por tê-Lo tão próximo de nós.
Esta visita, a terceira que um Sumo Pontífice realiza ao nosso país, é o reflexo das relações construtivas que a República de Angola e a Santa Sé mantêm há décadas e que sinalizam, hoje, mais um passo no reforço do diálogo e das bases sobre as quais assenta o grande papel social da Igreja Católica.
Importa recordar que o primeiro contacto oficial entre a Santa Sé e esta região de África remonta ao século XVII, quando o Príncipe António Manuel Nsako Ne Vunda, mais conhecido por “Negrita”, se deslocou de Mbanza Congo, então capital do Reino do Congo, até Roma, por incumbência do seu Rei, para encetar uma diligência diplomática junto da Santa Sé.
As relações diplomáticas entre a República de Angola e a Santa Sé foram formalizadas num contexto político nacional diferente daquele que levou à assinatura, aos 13 de Setembro de 2019, do Acordo-Quadro que estabeleceu os parâmetros jurídicos das relações entre a República de Angola e a Santa Sé.
Sua Santidade,
Minhas Senhoras, Meus Senhores,
Mesmo nas circunstâncias mais difíceis do passado, o diálogo entre as autoridades angolanas e as instituições religiosas católicas manteve-se sempre voltado para a construção de entendimentos que passaram também pelo intercâmbio de delegações ao mais alto nível, materializado pelas visitas de Chefes de Estado angolanos ao Vaticano em pelo menos três ocasiões.
Esta busca constante de diálogo e de interacção entre o Estado e a Igreja Católica ajudou o Governo angolano na formulação de políticas sociais, com a realização de investimentos nos sectores da saúde, da educação e ensino, da oferta de água, energia eléctrica, habitação, na criação de emprego e no combate à pobreza.
Esta é uma missão em que estamos profundamente empenhados e com a noção plena de que se trata de um desafio complexo e difícil, que requer tempo e recursos que não são tão abundantes quanto desejaríamos, para melhorarmos os índices de qualidade de vida dos angolanos.
Gostaríamos de poder contar com um envolvimento mais construtivo da Igreja Católica na condição de parceira social do Estado, para juntos trabalharmos no propósito de alcançar o progresso e o desenvolvimento económico e social do nosso país.
A ideia central da atenção aos pobres, plasmada na Exortação Apostólica Dilexi Te de Vossa Santidade, em que considera, cito: “Deus tem um lugar especial no seu coração para aqueles que são discriminados e oprimidos” e “apela a escolhas radicais para ajudar os mais fracos”, tem uma ressonância muito especial entre nós, governantes, porque serve de guia na nossa acção quotidiana de luta contra as desigualdades, a indiferença e a exclusão social.
Sua Santidade,
Minhas Senhoras, Meus Senhores,
Excelências,
Estou seguro de que Vossa Santidade terá a oportunidade de observar mais de perto a profundidade da fé dos angolanos e de apreender de forma mais objectiva as iniciativas que o Estado angolano empreende para dignificar locais de culto e peregrinação, de que realço a Basílica da Nossa Senhora da Muxima, em fase de construção, onde os cristãos católicos poderão expressar em melhores condições a sua devoção a Deus.
Somos um Estado laico, onde cada cidadão pode expressar livremente a sua fé, fazendo opções pelas confissões religiosas com as quais mais se identifica, sem nenhuma restrição à sua liberdade de escolha.
O Catolicismo tem uma grande expressão, que se reflecte no grande número de crentes e na sua grande expansão pelo território nacional.
Temos em Angola uma grande diversidade de religiões, que convivem entre si pacificamente e trazem à evidência o carácter profundamente tolerante dos angolanos, tendo-se consolidado já a prática de todos os anos, em algumas datas históricas, se realizarem cultos ecuménicos, que são rotativamente dirigidos por líderes de diferentes confissões religiosas.
Sua Santidade
Minhas Senhoras, Meus Senhores,
Excelências,
A trajectória e a experiência da República de Angola ao longo das últimas cinco décadas constituem uma boa ilustração do facto de sermos uma Nação que consagra a resolução das crises pelo diálogo.
Trata-se de um forte marco identitário da nossa diplomacia, que tem moldado de maneira significativa a nossa política externa e que nos tem levado a desenvolver iniciativas diversas em prol da paz no nosso continente.
Olhamos para o mundo como um espaço de coexistência entre pessoas e nações de culturas e religiões diferentes e com a firme convicção de que, apesar desta diversidade, todos podem e devem conviver pacificamente.
Só em paz e em harmonia podemos todos desfrutar dos recursos que a Natureza coloca ao nosso dispor. Lamentavelmente, assistimos cada vez mais a uma corrida desenfreada às matérias-primas, aos recursos energéticos, aos recursos minerais e outros, tomados pela força das armas dos exércitos mais poderosos do mundo contra países soberanos.
O comércio internacional tem regras bem estabelecidas que, uma vez cumpridas, as empresas e os Estados, através de contratos e de acordos, podem ter acesso aos recursos que precisam para a satisfação das suas necessidades, sem que tenham de recorrer à guerra.
Vive-se um momento perigoso com os conflitos que se proliferam por todos os continentes.
O Médio Oriente, berço do Cristianismo, do Islão e do Judaísmo e de grandes civilizações, de quem a Humanidade tem muito que agradecer, devia ser uma zona de paz, de concórdia e de fraternidade.
Pelo contrário, constatamos com muita mágoa o sofrimento dos povos da Palestina, do Líbano e de todos os países do Golfo Pérsico, região produtora e exportadora de petróleo e gás para uma boa parte do mundo e com economias prósperas e em franco e acelerado crescimento, a ruir como consequência das guerras que lhes impuseram.
Apelamos ao fim definitivo da guerra, à abertura do Estreito de Ormuz pela via negocial e ao estabelecimento de uma paz duradoura na região.
Face à probabilidade de agravamento do conflito, que nos aproxima cada vez mais do abismo, o mundo apela a Vossa Santidade para que, do alto da Sua autoridade moral, continue a desempenhar um papel de construtor de pontes, de apaziguamento dos espíritos, de resgate dos valores humanistas, de busca da concórdia e do entendimento entre os Homens.
É urgente que todos os estadistas influentes e figuras públicas com reconhecida autoridade moral actuem conjuntamente para assegurar que, nas relações internacionais, a justiça e o diálogo prevaleçam sobre o uso da força.
Desejo a Vossa Santidade uma boa estadia em Angola e uma missão pastoral profícua e de grande sucesso.
Muito Obrigado.